30 de novembro de 2011

Parêntesis


Hoje vou contar-vos uma história. Será a história de um velho amigo a quem vou tratar ficticiamente por Chico. O meu amigo Chico era um tipo de postura e aparência tímida. Dotado de alguma inteligência, o Chico era um proeminente estudante e augurava-se nada menos que um futuro brilhante, numa área ligada às ciências.


Chico trabalhava para pagar os estudos. Nada de anormal e até bastante nobre. O trabalhito nem era mal pago, tendo em conta a baixa complexidade da função e, graças à sua astúcia, descobriu ali, naquela actividade paralela ao estudo, a verdadeira, e talvez única, vocação.


A sua atenção foi pois desviada do tal futuro promissor e optou pela via do dinheiro fácil. Como diz o povo “em terra de cego, quem tem olho é rei” e é por essa máxima que resolve pautar os anos seguintes da sua vida.


Monta então um personagem frágil, de sexualidade duvidosa e a estas premissas alia o bom porreirismo. Tudo lhe corre como esperado. Progride em alta velocidade na carreira e o exponencial engrossar da sua carteira diz-lhe que não se enganou na sua opção. Adeus sucesso global! Olá sucesso da minha quinta!


Rodeia-se de uma corte de bajuladores. Consigo abanam a cabeça e riem das suas tiradas. Nas suas costas, nos seus circuitos mais íntimos e até socialmente, gozam-lhe a tal sexualidade de que já se falou, gozam-lhe o aspecto físico. São mesquinhos. Mordem aquela mão amiga.


O Chico não tem consciência disto. Ou se calhar tem, mas releva-a porque ainda assim vai retirando o sumo como mais lhe convém. Afinal de contas são também os que lhe chamam nomes pelas costas, que lhe enchem os bolsos.


A sensação de poder entra na sua vida. Agora já não se contenta em ganhar dinheiro. Quer mais. Acha que pode mexer nas peças do seu tabuleiro como bem quer e lhe apetece. Está no topo da pirâmide da sua rua e isso embaça-lhe a visão. Não tem a percepção que a sua rua é demasiado pequena e que a sua pirâmide pouco mais é que um brinquedo de criança. A ambição que lhe trouxe a subida meteórica, faz-lhe perder a noção.
 

Foi essa mesma ambição que o voltou a colocar mais abaixo do que o próprio chão. Hoje não tem nem a carteira cheia, nem a sua corte. Esta última agora já não tem pejo em lhe mostrar na cara, o que dele sempre acharam.


Pobre Chico!

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