29 de outubro de 2015

Desgovernos



Hoje fui presenteado com mais um banho de realidade. Sem fazer muito por isso, vi de frente como é que se mata, aos poucos, a sensação de confiança nas instituições nas quais se alicerçam as sociedades ditas modernas. O relato seguinte não será exclusivo meu, mas apenas mais um que fará eco no fundo do poço que teimam em nos querer manter.

Dirigi-me a um agente da EDP para proceder a pagamento de uma fatura que já vencida. Sei que na cidade em que o fiz, Vila Franca de Xira, o balcão desta empresa não aceita pagamentos e já nem perdi tempo na deslocação, dirigindo-me diretamente para o referido agente. Chegado lá, o meu “bom dia” recebeu um caloroso grunhido de alguém enterrado nos seus afazeres e que não pretendi interromper. Esperei calma e pacientemente pela conclusão da tarefa, que achei sobredimensionada no tempo uma vez que eu era a única pessoa do outro lado do balcão. Convidado a apresentar o motivo da minha presença ali, passei a fatura para a mão da pessoa. Neste meio tempo entram duas clientes. Uma quer um jornal e a outra depreendi que lá estava por razões parecidas com a minha, a ver pelos papéis que tinha na mão. Com esta última a funcionária (ou proprietária, não sei qualificar), trocou palavras circunstanciais e com a primeira concluiu a transação. Eu continuei a aguardar.

Nesta altura faço questão de dizer, para quem não me conhece assim tão bem, que por si só este tipo de situações são o suficiente para me deixar pior que estragado. Sim, eu sei que sou pouco tolerante em relação a este tipo de “falhas”. Mas em minha defesa digo que o sou porque procuro ao máximo não as cometer com os outros e se, inadvertidamente, acontecem peço desculpa e tento co pensar de alguma forma.

Com toda a atenção finalmente focada no meu assunto, a senhora começa por me dar algumas informações que eu não consegui, no imediato entender. Fui presenteado com um “pois, não está com atenção ao que eu estou a dizer”. Como eu entendi que não estava ali para tirar apontamentos e que a minha “falta de atenção” não teria nada que ver com o assunto, pedi a fatura de volta e saí porta fora, não sem antes ter desejado um bom dia.

Termina aqui a primeira parte deste relato. Desculpem-me a extensão do mesmo, mas ainda nem sequer justifiquei aquilo que vos disse no primeiro parágrafo. Isto foi apenas um “fait divers” para a questão de fundo e que passo a descrever.

Agora sim desloco-me ao balcão da EDP com o intuito de saber onde encontraria outro agente para fazer o pagamento. Foi-me dito que em Vila Franca de Xira aquele era o único sítio que recebia faturas já vencidas. Pedi uma morada em Alverca. Pior ainda: não há um único agente lá. Abrindo o raio geográfico fiquei a saber, pelas funcionárias da empresa, que só em Loures ou Alenquer teria a possibilidade de cumprir com o meu propósito de pagamento… Ou então voltar à tal papelaria. Nova curiosidade: Não foi com espanto que na empresa de eletricidade receberam o meu feedback em relação ao tratamento recebido no agente. Aparentemente é coisa recorrente.

Pacientes leitores, não vos estou a falar de uma aldeia do interior, salvaguardando o respeito que tenho por todas elas. Estou a falar de um concelho com cento e quarenta mil habitantes! Cento e quarenta mil habitantes e um único agente para receber faturas vencidas? Eu quero confiar que a informação que me foi dada pelo prestador de serviço me passou está correta. Mas a estar correta a incredulidade que isso me traz é indescritível!


Compreendem porque é que eu digo, várias vezes e em vários locais, que somos uns mansos e gostamos de o ser, já que continuamos a colocar sempre os mesmos no poder aqueles que, há quarenta anos, nos calcam a cabeça para dentro do tal poço de que vos falei?...

17 de outubro de 2015

Vitórias que custam a engolir



No desporto a expressão “perdido por um, perdido por mil” é um chavão que pretende definir que uma derrota é, independentemente do score final, uma derrota. Mas isto é no desporto.

Por estes dias o país político acordou para um conceito diametralmente oposto. Há duas semanas atrás, houve quem cantasse vitória. Com o passar do tempo esses mesmos que se achavam vencedores são confrontados com a crueldade e, imagine-se, com a subjectividade do termo “vitória”. Falo em subjectividade porque há quem ainda ache que ganhou mesmo as eleições.

Lá para as bandas da coligação de betos oportunistas com oportunistas betos nunca uma vitória soube tanto a derrota como esta de que vos estou aqui a escrever.

Aqui é caso para dizer que “ganho por mil, perdido por um”… Ou algo parecido.