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A.M.C.

Fazes-me falta Fazes-me de tal forma falta que só hoje sei o que é sentir falta Faltas-me nas mais básicas necessidades Nos teus sorrisos, nos teus olhos mareados que diziam muito e significavam tudo Faz-me falta aquele conselho que não queria receber A história repetida que não queria ouvir As tuas mãos. Essas fazem-me tanta falta Eram hábeis as tuas mãos Esse toque falta-me mesmo que ainda o sinta. Faltam-me os ramos de eucalipto Faltam-me as peças de fruta e as buchas As cócegas são do que mais falta sinto... E não me falta nada Porque tenho mais do que alguma vez te dei Não me falta o aconchego da tua lembrança presente nas coisas Nem sinto falta do que está comigo e em mim Ainda agora não me faltas em nada E não me faltam formas de te agradecer Só me faltas tu.

Um ano

Não estou em contagem rigorosa, porque o tempo nunca foi para mim uma ciência exacta. Sabes bem que sou péssimo nessa particularidade de marcar as coisas com datas. Curiosamente, na hora zero desta contagem, parece que fiquei mais consciente de que esse facto não é uma característica, mas sim uma lacuna. As coisas que acontecem em um ano. E logo ali mesmo, no princípio desse ano, o Natal deixou de ter a mesma cor. A passagem do ano também. Mas o tempo não se compadece e vai seguindo. Não pára. E as coisas vão acontecendo como se nada fosse. Vou-te contando em tempo real as que mais marcaram a vida de todos, mas falta sempre algo. A mãe surpreendeu-me. De repente o gelo não estava lá mais e a dor, mais abafada hoje, mas sempre presente, deu lugar a uma necessidade de exteriorizar momentos e memórias. No tal tempo que não pára houve lugar para uma operação de remoção do apêndice ao João. Fez dele mais homem, porque homem que é homem tem que passar por algumas contrariedades, c...

O chefe de família que quis um dia ser padre

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Já lá vamos. Essa é uma história que não sendo longa, não é a que mais importa contar. Quero falar-vos de um homem que eu conheço desde que me conheço a mim próprio. O enredo por si mesmo não é dos mais complexos e em pouco ou nada difere do de outros homens que, tal como este, procuraram uma vida melhor fora das suas aldeias do interior. Década de 60. Deixa-se para trás uma família na esperança de a reagrupar o quanto antes, mas de preferência por terras mais prósperas e com os bolsos mais saudáveis. As terras não goraram as expectativas, já a saúde dos bolsos continuou débil. O homem seguiu o seu percurso. Fez tudo o que lhe era viável fazer para que não deixasse passar mal a tal família de novo unida. Lutou que se fartou. Usou a única arma que tinha ao seu alcance e que era a sua força. Nunca alcançou riqueza material, mas o que foi dando aos seus valia bem mais que ouro. Ninguém regateou nada. Ninguém queria mais que aquilo. O homem tinha mãos, já vos digo. Trabalhou a ...